Até que entrei no Santuário de Deus – Salmo 73.17
Asafe era um dos três responsáveis pelos cânticos nomeados por Davi, tratava-se de um homem responsável por representar o maior salmista da história no ato de cântico da casa do Senhor.
Ele tinha algumas características que são dignas de nota:
Ele era um levita – Os levitas eram os descendentes de Levi, ainda que haja muita distorção à respeito do real significado disso, alguns pontos devem ser levados em consideração:
· Os levitas foram dados a Deus em lugar dos primogênitos, todo primogênito era de Deus, os levitas eram sacrifícios vivos vitalícios.
· Os levitas não possuíam terras, eles moravam nos arredores do tabernáculo e do templo.
· Os levitas não tinham trabalho, seu trabalho era o serviço na casa do Senhor, de modo que todas as tribos tinham que dedicar uma parte de sua renda para sustendo família levítica.
· Os levitas tinham 3 subdivisões – Gerson, Merari e Coate.
· Os gersonitas cuidavam dos adornos do santuário, os meratistas transportavam as estruturas, os coatitas transportavam os itens sagrados.
· Provavelmente Asafe era deste último grupo, os levitas tinham várias funções, uma delas era a da música.
· Asafe provavelmente tinha entre 60 e 70 anos quando escreveu este Salmo.
· Asafe cantava e fazia o uso do címbalo que era uma espécie de prato
O dilema e o momento de Asafe
Asafe está no último estágio da vida, quando olha para trás, ele tem muito claros os seus postulados sobre Deus.
· Asafe é uma referência teológica e musical, ele participou de atos extremamente significativos no decorrer da sua vida, por exemplo, Ele cantou na volta da arca para Jerusalém.
· A cada 7 passos um boi era sacrificado em agradecimento a Deus.
· O auge se deu na inauguração do templo:
E os levitas, que eram cantores, todos eles, de Asafe, de Hemã, de Jedutum, de seus filhos e de seus irmãos, vestidos de linho fino, com címbalos, com saltérios e com harpas, estavam em pé para o oriente do altar; e com eles até cento e vinte sacerdotes, que tocavam as trombetas).
E aconteceu que, quando eles uniformemente tocavam as trombetas, e cantavam, para fazerem ouvir uma só voz, bendizendo e louvando ao Senhor; e levantando eles a voz com trombetas, címbalos, e outros instrumentos musicais, e louvando ao Senhor, dizendo: Porque ele é bom, porque a sua benignidade dura para sempre, então a casa se encheu de uma nuvem, a saber, a casa do Senhor;
E os sacerdotes não podiam permanecer em pé, para ministrar, por causa da nuvem; porque a glória do Senhor encheu a casa de Deus.
2 Crônicas 5:12-14
Após ter vivido tantas coisas boas, Asafe naturalmente já era considerado uma grande referência, de modo que Paul Gardner coloca que sua influência exceder as portas do templo, ele escreveu doze salmos, são eles: 50, e de 73 a 83.
Todos eram levitas até ele, após ele, passou-se a designar os filhos de Asafe, como que inaugurando um novo modo de louvar a Deus: Ed. 2.41
Este homem, já de cabelos brancos, tendo vivido grandes
momentos, vive uma intensa crise de fé.
Ele chega a cogitar que sua vida até ali foi um desperdício, de modo que diz isso no Salmo 73:
“Na verdade que em vão tenho purificado o meu coração; e lavei as minhas mãos na inocência”.
Salmos 73:13
Asafe estava transitando uma estrada escorregadia, ele tinha boas conclusões sobre Deus, mas quando pensava em sua vida pessoal e nas coisas ao redor, ele quase parou na caminhada.
E essa é sua primeira fala:
V.1 – De algum modo Asafe vê um distanciamento entre seus postulados sobre Deus e o sentimento de seu coração. Asafe tem claro em sua mente que Deus é bom, mas há questões pessoais em seu coração. O seu primeiro postulado sobre Deus é associado a uma justiça retributiva, Deus é bom para Israel em linhas gerais, Deus é bom para os limpos de coração. Aparentemente na mente de Asafe há um sentimento de que só é possível que Deus seja bom, se houver uma conduta prévia. Nós precisamos cuidar para que os nossos postulados sobre Deus, não estejam diretamente ligados a um sentimento de justiça própria, que elevemos demais as exigências de Deus para que ele ame alguém, pois, isso pode se tornar perigoso. A nossa relação com Deus muitas vezes é condicionada a obediência, a atos corretos, com isso subestimamos o amor de Deus e pensamos que ele sempre está pronto a nos punir, a se tornar indiferente a nós essa é uma relação perigosa, devemos cuidar para não entrar neste caminho.
V.2 – Asafe entende que o amor de Deus é condicional, Deus ama os que são justos, de forma que se eu não for, serei alheio, alienado a ele. Como resultado de seu sentimento de distanciamento de Deus, numa penitência própria, o escritor se autopunia, tomava conclusões sobre Deus que ele jamais disse. Por conta de seus postulados precipitados sobre Deus, os seus pés quase se desviaram. Asafe entendia que Deus era bom com os justos, mas ele próprio não era justo, em seus pensamentos os seus pés quase se desviaram, pouco faltava para que ele escorregasse em seus caminhos. A ideia aqui é de uma apostasia, por sentir que Deus estava indiferente a ele, por sentir que Deus lhe queria distante, Asafe entrou em Crise e quase se desviou. Em seguida ele expõe quais pensamentos lhe ocorreram no meio de sua crise de fé.
As duas primeiras lições deste texto são:
1º - A nossa fé pode passar por momentos de crise, mesmo os mais gigantes já passaram por isso.
· Vide os salmos imprecatórios.
· Vide Jeremias em Lamentações 3
Vide os exemplos de C.S. Lewis em seu livro a anatomia de uma dor:
"Não que eu esteja (suponho) correndo o risco de deixar
de acreditar em Deus. O perigo real é o de vir a acreditar em
coisas tão horríveis sobre Ele. A conclusão a que tenho horror
de chegar não é “então, apesar de tudo, não existe Deus
nenhum”, mas “então, é assim que Deus é realmente. Não se
iluda.”.
"Você nunca tem consciência do quanto de fato acredita em alguma coisa
enquanto a verdade ou a falsidade dessa coisa não se torna
uma questão de vida ou morte para você. E fácil dizer que
você acredita que uma corda seja forte e segura, enquanto a
está usando apenas para amarrar uma caixa; mas imagine
que deva dependurar-se nessa corda sobre um precipício.
Será que não iria primeiro descobrir o quanto na verdade
confia nela?"
2º - Nós precisamos ser mais generosos com pessoas que vivem crises de fé.
As capacidades que temos de suportar algumas coisas são variáveis, não devemos agravar o sofrimento de pessoas que estão ao nosso redor, agindo como os amigos de Jó com seus postulados.
V.3 – O que levaria Asafe a quase desviar? A partir deste versículo ele expõe a enxurrada pensamentos que o levou a uma verdadeira crise espiritual.
1º - Ele sentiu inveja dos soberbos – Este não é o sentimento mais fácil de admitir, invejar alguém é desejar ser o que este alguém é, desejar possuir o que ele possui. É entender que há algo em alguém que deveria me pertencer. Ele via a prosperidade dos ímpios, este fato o incomodava, pois, em sua mente o fato de ser justo ou tentar ser, seria diretamente relacionado a bênçãos de Deus, de modo que não fazia sentido ímpios terem prosperidade e ele não. A impiedade é um nível superior a mera falta de temor, a pessoas que não temem a Deus, mas são boas, outras tantas que não obstante não temer a Deus, são pessoas que praticam o mal e aparentemente vivem melhor. Essa questão deixava Asafe perturbado, pois, como pode alguém ser totalmente alheio a tudo o que se chama de “Deus” e se dar bem?
2º - V.4 – Eles são mortos em tranquilidade, não passam necessidades. É fato digno de nota como o “ter dinheiro” alivia os momentos finais das pessoas. Como pastor, algumas vezes acompanhamos de perto a dor de pessoas, vimos com frequência ímpios tendo pouca ou nenhuma dificuldade em seus momentos finais, eles aparentam descansar. Quanto a nós, não é difícil ver crentes que em seus últimos momentos sofrem de dores inimagináveis, angústias terríveis.
Acompanhei de perto um tio que lutou contra o câncer até o seu último momento, aparentemente a vida dele teria sido menos dolorosa no fim, não fosse a crença na possibilidade de cura, as vezes, neste sentido, a vida do existencialista é menos dolorosa do que é para nós os teístas.
V.5 – Asafe tem a impressão de que a vida de quem decide servir a Cristo é uma vida de outros pesos, que outras pessoas não tem.
Neste sentido, há certa razão, pois, quem outro segmento religioso te ordena carregar uma cruz? Que outro segmento te ordena arrancar olhos? Que outro segmento te ensina que há virtude nas fraquezas? A Sensação de Asafe é que quem vive sem lei, não tem com o que se preocupar, a sua vida é pesada, uma vez que ele deve incansavelmente pensar na existência e na vontade deste Deus que ele serve.
“Asafe se atordoou ainda com a constatação de que a
vida dos perversos é normalmente um sucesso. Não têm
duplicatas vencidas, nem filhos com fome. Nenhum aperto
financeiro lhes impossibilita a gozo das férias: "Não são
afligidos como os outros homens" (v.5b). Aliás, além de serem
economicamente tranqüilos, eles nem mesmo precisam lutar
para ganhar dinheiro pois "sempre tranqüilos, aumentam
suas riquezas" (v.12).”
V.6 – Não é só a falta de preocupação dos ímpios que desagrada Asafe, mas o modo como se gloriam no que fazem.
Ao usar os termos soberba como colar e violência como roupa, ele fala da falta de pudor e da violência como proteção pessoal dos ímpios.
V.7 – Eles são cobiçosos, desrespeitosos, sempre fazem planos criativos e são insaciáveis
V. 8 – Eles não tem pudor em tratar mal pessoas, em falar de forma arrogante, em humilhar publicamente
“A essa altura da descrição do empresário sem critérios
morais, ou do comerciante ambicioso, ou do "gatão" filhinho
de papai, sua mente já deve ter sintonizado muitas imagens
perfeitamente compatíveis com a descrição dos caracteres
acima. E o surpreendente é percebermos que, em muitas
ocasiões, já nos vimos invejando a posição dessas pessoas.
Ao falar em inveja, acho justo esclarecer o berço no qual ela
nasce: a inveja é sempre uma manifestação de admiração que
se dissimulou. Se ela existe no coração do homem, antes de
ter-se degenerado no sentimento mesquinho que a caracteriza, houve uma admiração que ameaçou sua segurança e, daí,
surgiu a inveja.”
O MUNDO MAIS PARECE UMA FESTA PARA A QUAL NÃO FOMOS CONVIDADOS – ESTER 1
V.9 – Eles blasfemam abertamente contra Deus
Falar sobre o preço da intimidade – Moisés
10-11 – Eles tem seguidores que se perguntam: Deus realmente está vendo isso? Ou se vê, ele de fato se importa?
Eles são como fontes de águas e as pessoas bebem de suas filosofias.
12 – A impressão que Asafe tem é que eles vivem de forma mais segura, as vezes para nós, resta calcular os centavos para acertar coisas básicas da vida, enquanto eles sem esforço enriquecem.
A conclusão precipitada de Asafe
A conclusão de Asafe não poderia ser pior - V.13
Na verdade que em vão tenho purificado o meu coração; e lavei as minhas mãos na inocência.
Pois todo o dia tenho sido afligido, e castigado cada manhã.
Salmos 73:13,14
Asafe começa a achar que todo seu trabalho foi em vão.
Começa a achar que não valeu a pena nada disso que ele fez até hoje, ainda mais quando pensa apenas em termos terrenos.
Asafe no fundo tem uma teologia do sofrimento mal resolvida
2º Cor. 4.8-10, e 16 a 18; Romanos 8.18, 1 Pedro 4.15-16, 1 Timóteo 6.6,
· O grande medo de Asafe no fundo era que seus irmãos descobrissem sua crise – V.15 e 16
O dilema de Asafe começa a ser resolvido no versículo 17.
Vamos a algumas lições:
1º - Cuidado com sua vida devocional, você não pode levar sua vida cristã no ativismo.
2º - Existem experiências pessoais que são maiores que qualquer postulado teológico
3º - Cuidado para não superestimar a vida no mundo
4º - Uma fé provada é muito mais forte do que uma fé apenas declarada
5º - Deus é soberano e justo
6º - Deus nos segura nos tempos de crise
7º - A verdadeira riqueza, nós que temos
"Não é possível ver nada de maneira adequada
enquanto os olhos estiverem embaçados de lágrimas. Você
não pode, na maioria das situações, conseguir o que deseja se
o fizer desesperadamente: o resultado é que não conseguirá
aproveitá-lo ao máximo."
"Quando nada há em sua alma exceto
um grito de socorro talvez seja o exato momento em que Deus
nao o pode atender: você é como o homem que se afoga e
que não pode ser ajudado por tanto se debater. E possível
que seus gritos repetidos o deixem surdo à voz que você esperava
ouvir."
"Pode um mortal fazer perguntas que Deus considera não
passíveis de resposta? Absolutamente, sim. Todas as perguntas
sem sentido não são passíveis de resposta. Quantas horas
há num quilômetro? O amarelo é quadrado ou redondo?
Provavelmente, metade das perguntas que fazemos — metade
de nossos grandes problemas teológicos e metafísicos — pertençam
a essa categoria."
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